Quando se fala em música, alguns questionamentos surgem, desde sua origem, como, quando e de que forma ela nasce. Se existe um porque, se veio por inspiração, se foi pensada, analisada…. Diversas opiniões e discussões surgem. Se a análise é feita por um ouvinte independente de conhecimento de teoria musical, simplesmente se comenta quanto a beleza da música, num todo. Já quando quem escuta é um músico, o ouvido fica atento aos arranjos, as harmonias encrencadas ou não, se há dissonância, modulação, ou mesmo se choca isso ou aquilo, se diz tudo ou nada. Pessoas “cult” caminham pela expressão da letra, atmosfera gramatical etc,etc,etc…E há ainda os especialistas em fazer uma análise semiótica da poesia que se faz canção.
Meu texto hoje aqui, retrata de forma simples, o que pode resultar em uma canção. O acaso. E que acaso! Há um bom tempo atrás, fui assistir um som instrumental na Livraria da Esquina, antes mesmo da mesma mudar de endereço. Música de prima, músicos de prima, e eu naquele dia, não resisti a prestigiar uma jam com músicos que marcavam presença semanalmente no lugar. Tudo bem! Durante a sonzera, se aproxima de mim, uma figura amigável, que sentou ao meu lado e após trocar algumas poucas palavras, me entrega um guardanapo com uma letra legível, e versos inspirados e, sem pestanejar disse em bom tom, mais ou menos assim: O que você acha? Me falaram que você é compositora, essa letra dá uma música? Claro, fiquei sem jeito. Mesmo porque, tão habituada a fazer minhas letras e músicas em kit completo, sabia que aquela situação era um desafio. Mas um desafio musical, interessante. Ah, li com calma e achei linda aquela poesia feita por aquela figura simpática, durante a apresentação que rolava naquele momento. Minha resposta foi tão automática, que logo em seguida pensei: Como falei isso? E se não rolar a música, e se a métrica da letra ficar difícil de musicar, e se não agradar, e … Enfim, soltei a frase ao ler a letra, que aquilo dava samba. E ele disse: Ótimo, quero ver. Estou curioso! Passei meu e-mail para ele, e claro, pedi para enviar por e-mail, pois assim ganhava tempo pra me preparar psicológicamente, ou quem sabe, ele deixava pra lá, e eu me livrava de pagar um mico ehehh. Não, Lenine Rocha, não pensou assim. Pra ele o negócio era sério. E logo a letra se deparou na íntegra em meu e-mail. Pois é, pra ele, uma vontade de ver a letra mais viva do que já era. E eu do outro lado, com uma pequena encrenca…rs. Puxa, por onde ir, como? Samba, lá vou eu. Mas aconteceu. Fácil? Não, nada. Tive que ralar os pensamentos musicais na cabeça, inspirar, transpirar…mas como um pintor lapida sua obra, eu alí era responsável por juntar duas obras em uma só, com razão e emoção, e claro, lapidar o melhor possível minha parte, sem alterar nem uma vírgula da letra em questão. Sem narcizismo, gostei do que foi criado. Gostei da música, gostei da Periferia da Poesia. Linda letra, a música acredito que correspondeu a poesia. Ele aprovou! Acaso do destino, a música nasceu ali! Mais um acaso. Dia desses, estava eu em Campinas, prestes a fazer uma apresentação na Livraria CUltura, quando no camarim, chega alguém e pergunta para os músicos sobre mim. Eu ouvi a voz, e quando olho, era ele, Lenine Rocha, da Periferia da Poesia. Ele ouviu uma entrevista minha na CBN e descobriu que eu estaria fazendo um show. Levou a música com um arranjo lindíssimo, me deu a cópia que está pra ser lançada, tecendo elogios a nossa parceria. Fiquei encantada, até hoje, escuto e penso como esses encontros casuais podem resultar em parcerias musicais inusitadas. Música é isso!